Drops do Ciclo de Estudos: O que é e o que não é um livro?

Na última sexta-feira demos início ao nosso Ciclo de Estudos deste ano de 2026, que terá por objeto de discussão “o livro”, com a leitura de  “O que é e o que não é um livro”, de Ana Elisa Ribeiro, capítulo publicado em Livro: edição e tecnologias no século XXI, publicação da autora editada pela Moinhos e pela Contafios. Agradecemos de antemão à autora e à editora Moinhos pelo contato prévio sobre a disponibilização do texto para leitura em nosso projeto.

O texto foi lido coletivamente e a discussão teve por foco tanto as dificuldades em se definir um objeto com larga história e inserção cultural quanto as transformações que o vem caracterizando ao longo do tempo, acentuadas pelas novas tecnologias.

Principais pontos do debate

  • A questão conceitual: de um lado, o critério excludente e limitador de definições institucionais, como a da Unesco, ISBN e ISO, focado em uma regulamentação que exclui do conceito uma grande parcela dos objetos em circulação que se assumem como livros; de outro, o caráter extremamente amplo e abstrato de definições que, ao tomarem o livro como dispositivos de registro e circulação de informações, memórias e práticas culturais, não garantem nenhum tipo de circunscrição ao objeto. O grupo concordou com a conclusão do texto de que formato, natureza tecnológica e finalidade são os aspectos mais citados nas definições do que seria o livro, destacando que essa variedade de critérios é um dificultador para o estabelecimento conceitual.
  • A questão política: como as políticas do livro são hoje direcionadas pelo mercado e pela lógica da obsolescência, impactando profundamente o próprio objeto e o tipo de textos que ele veicula, ainda que permaneça em questão seu caráter de capital cultural e seu papel legitimador para posições sociais e distinguidas dos sujeitos. Refletiu-se também sobre como essas questões implicam sobre a literatura e sobre a crítica literária.
  • O caráter “datado” do próprio texto em relação a algumas das abordagens associadas ao livro eletrônico: escrito originalmente para um evento em 2011, as referências mencionadas no capítulo ainda se pautam em questões como a substituição do livro impresso pelo digital, assim como em algumas associações ao livro eletrônico que hoje já encontram outros focos de debate. No entanto, a reflexão sobre a necessidade de se compreender o livro como uma tecnologia situada tanto social quanto historicamente, assim como em seu aspecto de interface e experiência, mantém-se atual. Destacou-se a reflexão sobre os processos de memória da escrita e da leitura associadas às mudanças tecnológicas, com destaque para a situação atual da “crítica genética”. 
  • As terminologias associadas ao “recipiente/contêiner”: a partir das proposições do texto sobre as diferenciações e pontos de contato entre suporte, portador e gênero, o grupo pensou também em como eles dialogam com o conceito de “mídia”. Essa discussão encaminhou o debate para a distinção entre “livro” e “texto”, assim como para a de “publicações”, em caráter mais amplo, que é o foco do LEP. Destacou-se a expressão “objetos de ler” como potencialmente interessante ao projeto, sem no entanto problematizar o que se entende nela por “objetos”. 
  •  O lugar do design e da ilustração: discutiram-se as proposições de opacidade e transparência do design, e da organização hierárquica entre texto/materialidade, apontando-se como ideal do LEP pensar essas duas coisas em diálogo, sem que uma se sobreponha à outra. 

Conclusão

A discussão evidenciou que os critérios para definir o que é um livro são fluidos e flexíveis, mesmo entre especialistas. Para o LEP, essa reflexão é fundamental, pois toca diretamente os questionamentos sobre publicação, materialidade e edição experimental que orientam as investigações do laboratório. O encontro reforça a importância de repensarmos categorias fixas diante das transformações tecnológicas e culturais do presente.

Participe!

Uma vez por mês vamos nos encontrar para conversar sobre “livros” ao longo deste ano. Os encontros são abertos: é só chegar para ler e discutir com a gente. Nosso próximo encontro será no dia 10 de abril, quando vamos ler Anatomia do livro, de João Varella (Editora Lote 42).

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