“Um livro sobre um livro sobre livros que não são livros”. Essa é a definição que traz Gustavo Piqueira, ao falar de Era preciso estar em sintonia com o seu tempo, seu mais recente livro publicado pela Lote 42.
Se a explicação parecer confusa – e ao mesmo tempo um daqueles acenos irônicos presentes em seus livros e nas diversas conversas às quais ele é convidado para falar sobre seus trabalhos –, tudo bem. A caixa – composta pela edição fac-símile de uma carta de um autor imaginado; a reprodução fotográfica de Frisson! Frisson!, um livro de artista desse mesmo autor (com prefácio de Piqueira); um lookbook (um manual para tornar Frisson! Frisson! um objeto de decoração para casa); uma maquete de sala com miniaturas das páginas do objeto para brincar e simular as decorações; e um livro que reúne ensaios de especialistas e uma entrevista com Piqueira – é um labirinto convidativo a entrar e a sair por qualquer lado, por qualquer item presente.
O labirinto soa pertinente quando nos deparamos com praticamente qualquer obra de Gustavo Piqueira. Em sua carreira multipremiada como designer gráfico, materialidades se tornam imprescindíveis à experiência, e seus trabalhos literários trazem à tona suas pesquisas sobre as diversidades materiais e estéticas do livro, confirmando a tese de que tudo pode caber num livro – a narrativa, mas também a linguagem, os processos de produção e as experimentações com diversas formas e códigos.
Na Noite Gráfica realizada em 20 de outubro, na Livraria Gráfica, Piqueira confirma as operações de usar a literatura como espaço do qual partiria o pensamento sobre o livro e sua materialidade. Segundo ele, Era preciso… “é um livro que está naquele grupo de livros que eu faço e que têm uma função: a de mostrar as estruturas que formam as coisas que a gente lê, que a gente consome”. Nós, do LEP, recomendamos dois trabalhos de Piqueira que são nossos preferidos. Bibi parte de uma narrativa infantil e rompe com o preparo prévio do leitor por meio de diversos recursos visuais e narrativos que implodem os gêneros e as estratégias de leitura que inconscientemente adotamos. Por outro lado, temos De novo, que provoca o público a partir da virada de página, talvez o gesto mais automático e banal quando se tem um livro nas mãos.
Enquanto aguardamos as próximas edições da Noite Gráfica, convidamos para ver o bate-papo no Youtube da Sala Tatuí e um episódio especial no podcast Papo Tatuí.


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